O IMPREVISÍVEL É REMISTURÁVEL
{o imprevisível é remisturável.
as horas contradizem os minutos.
chorar muito sobre um rio seco,
esperar o espírito dos peixes.
acordar poeticamente um dia
porque a memória se esqueceu
que o esquecimento seria lançado
numa poesia completa e definitiva.
e escrever mais um poema que
esconde tristezas junto de falhas.
e actualiza desactualizando.
inventada escrevo de novo.
escrever é esculpir sem pedra.
e depois procurar uma pedra,
pesar a pedra, e depois o poema.
e ainda pesá-los juntos e verificar
se o peso bate, contradiz ou a pedra voa.
pesar com os olhos e a leitura.
porque o imprevisível é saturável.
remisturável. talvez acorde um dia
adormecida em muito amor,
talvez não seja realmente eu
mas um prazer minúsculo que me derroga,
talvez me resgatem apenas de uma lágrima.}
OUTONO
{cada vento tem o seu próprio outono
e cada próprio outono tem os seus veios.
cada veio tem o seu coral e este a sua declaração.
cada vento tem, pois, a sua fenda
e cada fenda tem a sua respiração, porque é
insofismável que cada massa de silêncio
corresponde a uma desordem.
cada vento tem, claro está, a sua maneira de ser
porque cada outono transborda, e o resultado
do seu alagar de leito é um pensamento
em potência e ainda sem um mundo de expressão.}
{passam ventos diferentes em outonos diferentes,
respiro leitos de ar diferentes pela porta dos fundos
de uma forma de nexo trémula. lá longe
a arborescência parece indicar um sono profundo
e talvez alguém aproveite para sonhar.}



