terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

pedro ludgero

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pedro ludgero (porto, 1972)
Obra publicada: Se o poema tem areia (2001), o fim não é o fim (2004).



paisagem islandesa

convidaram-me
para ser a próxima alma armani
mas o que eu gostava
era de ser uma coisa que só acontece aos outros

o alegado eu
tem uma chocante vida dupla
de dia é um fabro
que labuta para a sociedade
de noite
um antiquíssimo poeta

com isso
aprendi que a musa é um gps de vias de facto

aliás
mais de direito serão os projectos
de erguer uma biblioteca no meu bairro
e de fundar um imenso harém
todo p'ra mim

à minha volta
como paparazzis
andam os anjos brandindo provas
em como afinal até existi
ao que eu respondo passando de ultraleve
por baixo de todo o desvario

e apesar da lei não escrita
que prevê que toda a alma
se cosa um dia com o topo do mundo
nesse dia de altíssima costura
'starei pronto a voltar ao desfile da rua

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vladi private islands

eis o que eu vou levar
na minha mochila
................................para westerbork:

uma garrafa de altas quintas Obsessão
(colheita de 2004)
para um momento especial

um vibrador
e o meu brevíssimo programa de governo
constituído por três pontos, a saber:

prometo limpar o rio de ouro
prometo incitar à desobediência militar
e prometo fazer

de cada poema
uma montanha-russa
num parque de sofrimentos

pedro ludgero


terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Sylvia Beirute

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Sylvia Beirute (Faro, 1984)


O IMPREVISÍVEL É REMISTURÁVEL

{o imprevisível é remisturável.
as horas contradizem os minutos.
chorar muito sobre um rio seco,
esperar o espírito dos peixes.
acordar poeticamente um dia
porque a memória se esqueceu
que o esquecimento seria lançado
numa poesia completa e definitiva.
e escrever mais um poema que
esconde tristezas junto de falhas.
e actualiza desactualizando.
inventada escrevo de novo.
escrever é esculpir sem pedra.
e depois procurar uma pedra,
pesar a pedra, e depois o poema.
e ainda pesá-los juntos e verificar
se o peso bate, contradiz ou a pedra voa.
pesar com os olhos e a leitura.
porque o imprevisível é saturável.
remisturável. talvez acorde um dia
adormecida em muito amor,
talvez não seja realmente eu
mas um prazer minúsculo que me derroga,
talvez me resgatem apenas de uma lágrima.}


OUTONO

{cada vento tem o seu próprio outono
e cada próprio outono tem os seus veios.
cada veio tem o seu coral e este a sua declaração.
cada vento tem, pois, a sua fenda
e cada fenda tem a sua respiração, porque é
insofismável que cada massa de silêncio
corresponde a uma desordem.
cada vento tem, claro está, a sua maneira de ser
porque cada outono transborda, e o resultado
do seu alagar de leito é um pensamento
em potência e ainda sem um mundo de expressão.}

{passam ventos diferentes em outonos diferentes,
respiro leitos de ar diferentes pela porta dos fundos
de uma forma de nexo trémula. lá longe
a arborescência parece indicar um sono profundo
e talvez alguém aproveite para sonhar.}