terça-feira, 3 de Novembro de 2009

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Sylvia Beirute (Faro, 1984)


O IMPREVISÍVEL É REMISTURÁVEL

{o imprevisível é remisturável.
as horas contradizem os minutos.
chorar muito sobre um rio seco,
esperar o espírito dos peixes.
acordar poeticamente um dia
porque a memória se esqueceu
que o esquecimento seria lançado
numa poesia completa e definitiva.
e escrever mais um poema que
esconde tristezas junto de falhas.
e actualiza desactualizando.
inventada escrevo de novo.
escrever é esculpir sem pedra.
e depois procurar uma pedra,
pesar a pedra, e depois o poema.
e ainda pesá-los juntos e verificar
se o peso bate, contradiz ou a pedra voa.
pesar com os olhos e a leitura.
porque o imprevisível é saturável.
remisturável. talvez acorde um dia
adormecida em muito amor,
talvez não seja realmente eu
mas um prazer minúsculo que me derroga,
talvez me resgatem apenas de uma lágrima.}


OUTONO

{cada vento tem o seu próprio outono
e cada próprio outono tem os seus veios.
cada veio tem o seu coral e este a sua declaração.
cada vento tem, pois, a sua fenda
e cada fenda tem a sua respiração, porque é
insofismável que cada massa de silêncio
corresponde a uma desordem.
cada vento tem, claro está, a sua maneira de ser
porque cada outono transborda, e o resultado
do seu alagar de leito é um pensamento
em potência e ainda sem um mundo de expressão.}

{passam ventos diferentes em outonos diferentes,
respiro leitos de ar diferentes pela porta dos fundos
de uma forma de nexo trémula. lá longe
a arborescência parece indicar um sono profundo
e talvez alguém aproveite para sonhar.}

domingo, 2 de Agosto de 2009

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carlos vinagre (Espinho, 1988)
Obra publicada: Moluscos de Mântua

Inebriado, dissolvido nas migalhas nocturnas. Olham-se. Fixam-se os meandro ilógicos das luzes sorvidas aos rodopios, tombam assim os nossos profusos desejos. Cai a razão. Decai a matéria da vigília, a sua márcara, o seu apetite- horizontam-se matérias recalcadas pelos dedos obscuros. A minha alma tolhe-se de música. Passeando, intelectualmente, fixamos pontos vagos na nossa consciência. Há mulheres sentadas no orifício das nossas carnes, as pupilas dilatam a sua alma- extasiamos sentidos.
Encontro o sentido nas esquinas plásticas que nos circundam os neurónios. Pego numa vodka e torno-a o meu sangue, incho-me de um sentido adverso ao sentido do sangue- cubro-me de fivelas de carne na epiderme da vida. Sou uma taberna com pó soalhado nas janelas.
A escatologia enerva-me. É uma radiação piramidal em desenho de espiral esfumada. Trespasso-me ao luar com lâminas de pensamento pastoso, dedilho as mágoas, imundo-as nas recordações, estico os meus canais até às nuvens do ofício. Abate-se um negrume espelhado nas margens da fantasia.
Páro dentro do labirinto. Vislumbram-se os castiçais, as novenas embriagadas das pessoas. Um ar de plástico, como fio de névoa sobre maresias esbatidas, emerge nas esquinas irradiadas de vozes e corpos coroados de ornamentos vestibulares- um palco cobre as faces com uma pincelada de tédio, cobre marginalmente com um pó-de-arroz estragado nos músculos do espírito. Sinto o mundo coberto de trevas.
O cansaço curva a percepção. A percepção alucina. Um vómito horroriza-me a carne. Fecho o céu, atiro uma cerveja para uma parede arruada e parca, maquinalmente masturbo as fechaduras insondáveis, berro as lágrimas da vida. E é nesses momentos de febre existencial que eu sujo os pulmões com uma tórrida solidão, uma bronquite de tristeza, uma melancolia dos brônquios: apago a alma e recomeço a escrever outra fantasia: recomeça o cântico e a outra fantasia a ser: sujamos continuamente o espírito com o ser.


A minha visão turva
próprias inapropriadas paralisias
contagiados na almofada
o ténue desprendimento dos contrastes
a industrialização nocturna
minhas sereias consumidas
jornalisticamente

Impossível: acidentes e perspectivas
a claridade gripária da polémica
questões remetidas para crónicas
confrontos iconoclastas devorados
pelas cerimónias febris e esbatidas;

cursos nas escadarias; escuto as sebentas;
ouço o sussurro longo da inexistência
e auto-revoluciono-me.

Outono: maresia caindo como lágrimas
sem ciência, sem epidemia, tocando
as vestes do frio pouco civilizado.

Bradar aos folhetins da epiderme sináptica
baldes de neurónios discursados no elevo
dos frescos:
reacção molecular do aparato noctilúnio
paralisada derme da alba nocti-distante:
conservei-me assim:
no forrado veludo das alcovas.